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David | Destino França | Trabalhar a 1000 km de casa


Colocado por | Fevereiro 4, 2014 | Testemunhos de Migração

Chamo-me David Oliveira, tenho 24 anos e nasci em Coimbra. Conclui a licenciatura em Enfermagem em 2011 pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra.

Enfermagem nem sempre foi o meu sonho como profissão, mas por volta dos 15 anos, por incentivo da minha mãe e pelo fato de ter enfermeiros na familia comecei a ganhar o gosto pela profissão. E com o avançar do tempo fui ganhando a curiosidade para perceber a fisiologia do corpo humano, os estados patológicos e formas de tratamento dos mesmos  e, mais tarde, com a iniciação do curso de enfermagem tive a certeza que era este o meu caminho.

Ap√≥s ter terminado o curso, fui mais um dos que enviaram exemplares do curriculum para todo o tipo de institui√ß√Ķes sem obter resposta. Considero-me uma pessoa honesta, respons√°vel, aplicada e trabalhadora e penso que a educa√ß√£o dada pelos meus pais me ensinou a nunca estar parado e ir em busca dos meus objectivos. Realizei tr√™s forma√ß√Ķes ap√≥s o curso de enfermagem (franc√™s para profissionais de sa√ļde, curso de massagens terap√™uticas e curso de formador) e trabalhei durante cinco meses numa pastelaria.

A ideia de emigrar nunca esteve presente nos meus ideais e até à véspera de emigrar tive sempre um pé que não queria deixar o solo português e acho que até estar na França nunca acreditei que eu iria emigrar. Aliás, muitos amigos meus também não acreditavam que eu o iria fazer, até porque tinha o sonho de poder trabalhar nos Hospitais da Universidade de Coimbra embora tenha enviado exemplares do curriculum para vários pontos do pais. Contudo, as propostas de empregos não apareciam e através de uma colega inscrevi-me numa empresa de recrutamento  e emigrei para o sul de França onde me encontro a trabalhar desde 5 de Janeiro de 2012.

David, porquê França?

A escolha da Fran√ßa foi motivada principalmente pelo fato de ter um irm√£o emigrado em Fran√ßa j√° h√° alguns anos – embora me encontre afastado dele mais de 800km – e pelo fato do idioma franc√™s n√£o me parecer muito dif√≠cil. Depois encontro-me sensivelmente a 1000 km de casa o que me permite desloca√ß√Ķes mais frequentes a Portugal.

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(Maubourguet, a vila onde vivo)

Como se processou a escolha do local de trabalho?

Após me ter inscrito uma empresa de recrutamento e ao fim de quatro dias de formação (dialogar em francês em contexto hospitalar) foi-me realizada uma proposta para trabalhar numa Maison de Retraite (um lar medicalizado) no sul de França e resolvi aceitá-la.

E a adaptação ?

A adaptação foi difícil, porque dou muito valor à família e saber que iria estar longe da minha e que iria estar, também, longe da minha namorada e dos meus amigos era complicado de suportar. Dei por mim várias vezes a revisitar fotos e a deixar cair lágrimas de saudade e de tristeza. O que me ajudou a suportar  esta mudança foi o fato de ter vindo com um outro enfermeiro, embora não trabalhássemos na mesma instituição, pois pelo menos podíamos matar saudades da língua portuguesa assim que chegássemos do trabalho e podíamos desabafar sobre as dificuldades na adaptação. Conheci-o poucos dias antes de emigrar e hoje em dia considero-o um grande amigo.

Quais os principais constrangimentos encontrados ao nível social e profissional?

√Č uma grande mudan√ßa o fato de deixar o nosso pa√≠s, e n√£o √© f√°cil para ningu√©m. No meu caso, dos principais constrangimentos sociais destaco o fato de n√£o conhecer ningu√©m na vila e o fato de n√£o dominar a l√≠ngua francesa tornar a tarefa de conhecer pessoas mais dif√≠cil. Depois o fato de n√£o existirem muitos jovens na regi√£o tornava dif√≠cil fazer os programas que habitualmente fazia (sair √† noite, ir ao cinema, jogar futebol, etc). Em Portugal, juntamente com o meu grupo de jovens realizava diversas atividades, principalmente no seio da vida crist√£, e tinha uma vida socialmente ativa, mas ao emigrar deparei-me com muito tempo vago sem ocupa√ß√Ķes e no in√≠cio foi muito dif√≠cil gerir esta mudan√ßa brutal. Deixei a fam√≠lia, deixei a namorada, deixei a musica, deixei de dar catequese, deixei de cantar na missa‚Ķembora esteja tudo presente na minha mem√≥ria. Ainda hoje sinto muito a falta das atividades que realizava antes de emigar, mas n√£o fui o √ļnico a ter de o fazer e na vida temos que fazer sacrif√≠cios e lutar por n√≥s mesmos.

A n√≠vel profissional deparei-me com algumas diferen√ßas em rela√ß√£o ao que tinha aprendido no curso de enfermagem, mas n√£o muitas. Na institui√ß√£o onde trabalho, deparei-me pela primeira vez com a realidade das perfus√Ķes sub-cut√Ęneas, com o fato da primeira algalia√ß√£o para a pessoa ter que ser realizada por ou na presen√ßa do m√©dico e os cuidados de higiene e de conforto s√£o realizados maioritariamente pelos Aides Soignantes (conhecidos em Portugal pelos auxiliares de enfermagem).

Confirmas que existe uma diáspora de enfermeiros portugueses já visível na França?

Na regi√£o onde me encontro n√£o existem muitos portugueses pois quando emigrei tive conhecimento de apenas quatro portugueses a viverem aqui. Para al√©m de mim existe apenas um outro enfermeiro portugu√™s a trabalhar nesta zona (aquele que emigrou juntamente comigo). No entanto conhe√ßo v√°rios enfermeiros portugueses que tamb√©m emigraram e que est√£o em v√°rios pontos da Fran√ßa. Sei que nos dois ultimos anos a imigra√ß√£o em Fran√ßa por parte de enfermeiros portugueses cresceu significativamente e as condi√ß√Ķes oferecidas ¬†aos mesmos pela Fran√ßa assim o justificam.

Satisfeito com a opção?

Partindo do principio em que ¬ę¬†n√£o podemos ter tudo o que queremos¬†¬Ľ sinto-me bem por ter arriscado e lutado para trabalhar na profiss√£o que queria e estar a desempenhar as minhas fun√ß√Ķes em prol do outro, mesmo n√£o sendo no meu pais. Poderia lamentar-me intemporalmente ou dizer que n√£o sou feliz por ter emigrado, mas a minha situa√ß√£o n√£o mudaria nada e apesar de ser dif√≠cil o regresso depois de cada visita a Portugal e de contar os dias para a proxima viagem √† minha ¬ęterrinha¬Ľ n√£o me arrependo do que fiz¬†. Estou contente por poder evoluir na carreira de enfermagem ao contr√°rio do que acontece em Portugal atualmente. Considero que a Fran√ßa tem certos h√°bitos com os quais me identifico, consomem-se muitos legumes, d√°-se muito valor √† convivialidade e gostei da forma como fui acolhido pelo povo franc√™s. Al√©m disso esta regi√£o do sul tem paisagens muito bonitas que me lembram Portugal.

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