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Catarina | enfermeira | “Procurar emprego numa das capitais europeias”


Colocado por | Novembro 3, 2013 | Testemunhos de Migração

cat_oliv1Catarina Oliveira. 24 anos de vida. Venho da terra que viu o galo cantar, Barcelos, mas foi em Famalicão, na Escola Superior de Saúde do Vale do Ave, que me formei como enfermeira. E porquê enfermeira? Tinha eu quinze anos quando a minha mãe me dizia: “Vai trocar ali a fralda à tua tia… Muda a posição à tua avo”… E como estes, tantos outros pedidos que eu fazia com todo o amor. Comecei a desenvolver o CUIDAR de tios e avós, que tanto me formaram como pessoa e disse a mim mesma: “Um dia hei-de ser Enfermeira”. E assim foi.

Venho de uma enorme família, humilde, que lutou para ter o que tem e ser aquilo que é. E isso, reflete-se enormemente na pessoa que sou hoje. Tive uma educação centrada no “faz aos outros o que gostavas que te fizessem a ti”, e tenho a bondade do meu avô presente em cada gesto da minha vida. Sou humana. Muito. Dou imenso daquilo que sou aos que se cruzam na minha vida. Sou dinâmica, observadora e diria que um pouco perfecionista. Quero sempre dar o meu melhor. Ambiciosa também. Chatinha por vezes, mas como diria a minha avozinha “um amor de pessoa”. Durante estes vinte e quatro anos de vida pertenci a imensos grupos: escuteiros, catequese, acólitos, futebol, voluntariado, campos de férias… Tinha a minha vida ocupada a 200%… Mas era imensamente feliz nesse dispensar de energia, de tempo… Ganhei imensa bagagem como pessoa. Conheci imensas pessoas. Vivi variadas experiências. E tornei-me numa pessoa “apta a tudo”. E esta aptidão fez-me, aos vinte e dois anos, partir com uma mala de 20Kg, o meu primeiro bilhete de avião e o destino Paris, sem ter qualquer tipo de proposta de trabalho. Tinha apenas o desejo de vingar no meio destes avec’s, como lhes chamava, a ambição de me superar a mim mesma, num enorme desafio que seria: Procurar emprego numa das capitais europeias, e posto isso, VIVER numa capital como Paris. Superei-me… Como tantos milhares (milhões?) de portugueses se superam em emigração.

Parti no dia 24 de Abril de 2012 com a vontade de arranjar emprego e o sentimento de que se não conseguisse, ao menos tinha tentado e tinha conhecido Paris. Dia 29 de Maio de 2012, tornei-me oficialmente a primeira enfermeira portuguesa contratada pelo Hospital Maison Blanche, em Paris 20éme, e um ano depois, titularizaram-me, quer isto dizer, que sou funcionária pública, em França, algo que em Portugal, seria praticamente impossível. Deus protege os audazes. E o importante será sempre a força de vontade que teremos para enfrentar os desafios, sejam eles da dificuldade que forem.

Catarina, porquê a França?

A boa vida académica acabou… E em conversas com amigos vinha sempre a hora desesperante do: “Mas não vamos ter emprego em Portugal!”. E, la no fundo, eu queria acreditar que “aquela cunha que o amigo da mãe prometeu arranjar”, ia dar certo, porque achava impensável deixar tudo aquilo que fazia, abandonar família e amigos para partir em busca do desconhecido. Os meses iam passando… e eu via que não ia dar certo. E começou a nascer uma angustia… “Quais são os países onde terei emprego? Que não fiquem muito longe, claro… Não vá dar as saudades e eu querer voltar para o meu conforto”… Inglaterra e França eram as opções mais viáveis. Mas entre falar o inglês, que sempre fui uma aberração, ou o francês que até dava uns toques quando era mais pequena… siga a tirar um curso de Francês, na Alliance Française, em Guimarães. Iniciei-me em B1, graças a uma amiga que ainda hoje me acompanha nesta aventura de emigração, mas confesso que sentia-me “o burro a olhar para o palácio” naquelas aulas. Porque a persistência tem de fazer parte das nossas vidas, la me empenhei e acabei o curso de 40h (o que é mesmo muito pouco) com uma boa média. O pior foi chegar cá… Tudo o que havia aprendido parecia zero ao lado desta língua que entendia falar. Confesso que tudo o que aprendi, foi em grande parte no Hospital onde hoje trabalho, graças aos meus colegas e à sua paciência e carinho pela “portuguesa”, como eles me chamam.
Paris, porque era a cidade onde sabia que tinha um teto e duas amigas para me orientarem no que fazer para encontrar um emprego. E além disso, porque era a cidade que sempre quis conhecer… aquela cidade magnífica, que hoje é a minha cidade!

Como se processou a escolha do local de trabalho?

Como quem não tem nada quer apenas “alguma coisa”, o importante era encontrar um emprego fosse ele na área de enfermagem que fosse. Uma vez chegada a esta dimensão cultural, a prioridade era enviar exemplares do curriculum vitae para tudo o que fosse hospital e maison de retraite (os nossos chamados lares), em Paris ou arredores, e que oferecessem casa, pois esse é um dos grandes problemas quando se chega ca. As casas são a um preço absurdo e nem sempre encontramos perto de onde trabalhamos. Mas isso são pormenores. Uma vez que vim apenas com a minha força de vontade, sem contratos prévios ou possibilidades de, passei cerca de quinze dias a devorar sites de emprego, mapas de Paris, Versalhes, entre outros. Preferia lar, uma vez que seria uma oportunidade para desenvolver esta língua tão especifica mas tão especial. Fui a algumas entrevistas, cujas respostas eram exatamente as mesmas: “Não duvidamos das suas capacidades como enfermeira, mas precisamos que ainda desenvolva a língua. Quando se sentir mais preparada, volte a contactar-nos”. Olhando para trás, sei que foram bastantes as lágrimas (o quanto quis aqueles abraços da mãe), que a vontade de desistir chegou a aparecer, mas a minha vontade de conseguir era muito maior. E não baixei os braços. Uma semana depois, recebo resposta a um dos cerca de duzentos mail’s enviados. Hopital Maison Blanche, Psiquiátrico, Paris, com casa a 300€ por um período de seis meses. Entrevista marcada, e o excesso de stress em que andava acumulou-se numa gigantesca borbulha, por cima da sobrancelha. E la fui eu… O francês escasso, mas uma arma poderosa que resultou: o sorriso. Jamais esqueço aquela entrevista que me permite que hoje seja funcionária pública. No entanto, as coisas hoje são bem diferentes. Na maioria dos hospitais é pedido um comprovativo da Ordem dos Enfermeiros Francesa de como estamos aptos à língua e a trabalhar em França. E as oportunidades de emprego para enfermeiros não são da abundância que eram.

cat_oliv2E a adaptação?

Quando vim, vinha ciente que “não seria fácil”. A partir do momento em que saímos da zona de conforto, do nosso bem-estar em família, das festanças com os amigos, do carinho daqueles todos que nos viram crescer… a vida complica. E na verdade, foi complicado. A barreira da língua é algo de extrema importância. Precisei de muita genica, muita observação e memoria, e acima de tudo, de muita paciência da parte da minha equipa de trabalho que me ensinou o francês como se eu estivesse na escola. O Francês aprende-se a falar com os franceses. Ainda me lembro do dia em que vou a um café e peço un coca avec du limon, quando limão é citron. A vida ca é completamente diferente. Não há as minhas “idas à pastelaria” para tomar o meu cafezinho no fim de almoço, não há os cafés diários com os amigos, não há as atividades de escuteiros, não há a mãe, o pai, os irmãos para chegarmos a casa e discutirmos o nosso dia de trabalho, ou para simplesmente termos aquela discussão do quem vai buscar o sal… E no início, isso fazia-me imensa falta. A adaptação vai-se fazendo aos poucos. Vamo-nos enquadrando neste emaranhado de culturas… Sim. Isso foi uma grande mudança na minha vida. A riqueza de culturas, a diversidade de pessoas que cuido. Como enfermeira, estou no meio mais rico para perceber que todo o Homem merece os mesmos cuidados, mas tenho que me adaptar a cada cultura, a cada religião, e isso tem-me enriquecido imenso como pessoa.
Julgo que a adaptação será sempre difícil… Mas será apaziguada por uma chamada de Skype, por uma conversinha ao telefone… ou até mesmo por um “deixarmo-nos abrir” às pessoas com quem partilhamos cá a nossa vida.
É preciso deixarmos a nossa fantástica casa de Portugal, que tinha tudo o que precisávamos, e passarmos a saber viver com o que temos cá, com as pessoas que temos cá, nunca esquecendo que os que amamos estarão sempre do lado de dentro do coração.

Quais os principais constrangimentos encontrados a nível social e profissional?

A língua é uma barreira enorme. Hoje digo que vir para França sem falar francês é um ato de loucura. Admito que fui louca e que trabalho com eles. Ter vindo para cá sem saber falar corretamente o francês foi um desafio enorme. É angustiante queremos ir a entrevistas de emprego, darmos o nosso melhor e não conseguirmos porque falta-nos aquela palavra…
Quando cheguei aquele hospital, “uma pequena portuguesa com uma borbulha na testa, que mal sabia falar”, tive a impressão de que não aguentaria a pressão. Ouvia os doentes a falarem comigo e não me conseguia exprimir da melhor forma. No entanto, comecei por conquistar os meus colegas de trabalho, e felizmente, eles deram-me a oportunidade de mostrar aquilo que valia. Estava sempre atenta a todas as frases que eles diziam, e em caso de dúvida, perguntava. Até me chegaram a ensinar gramática. Imprimia as folhas de passagem de turno e traduzia tudo, na certeza de encontrar muitos termos novos. Lia documentos de psiquiatria em francês e devorava canais de televisão franceses. Passar os vistos pelo jornal matinal também era, e continua a ser, um hábito. Guardava todas as expressões que eles usavam, e aos poucos e poucos, a chefe de serviço foi notando a minha evolução na língua. Simplesmente passados seis meses comecei a sentir-me realmente à vontade com o francês. Mas ainda hoje, agradeço aos meus colegas de trabalho cada falha corrigida, cada acento mal colocado nas transmissões escritas.
À parte da dificuldade da língua, considero que não foi fácil as questões mais administrativas da emigração. Abrir conta, fazer passe para os transportes públicos, são coisas que na altura, foram apenas motivo de grandes historias para um dia contar aos netos. Vir morar para Paris sozinha foi outra grande aventura. Um género de residência onde moravam médicos e enfermeiros estrangeiros que trabalhavam no hospital. Argelinos, finlandesas, suíças, franceses, checas… um misto de culturas fantástico. Vivi com eles momentos fantásticos. Aprenderam a comer sardinhas à mão e ensinaram-me a gostar de couscous.

Confirmas que existe uma diáspora de enfermeiros portugueses já visível em França?

No hospital onde trabalho sou a única enfermeira portuguesa. Mas é um facto que do milhão de portugueses que vivem em Paris e arredores, um número relativo será de enfermeiros. Já para não falar de Lyon, Marselha, Toulousse, Lille e tantas outras cidades onde os portugueses espalham a sua sabedoria. Somos uma comunidade já bem definida no mercado francês. E uma vez que cá, os enfermeiros têm apenas três anos de formação, eles valorizam imenso os enfermeiros portugueses pelos nossos quatro anos de formação. Somos vistos como pessoas de muita coragem, “que deixaram o seu pais, vieram aprender uma língua nova, e que não se deixam abater por nada”. Somos portugueses e basta!

Satisfeita com a opção?

Não poderia ter tomado uma melhor decisão na minha vida. Cresci imenso neste ano e meio que passou, ultrapassei dificuldades que jamais sabia o que seriam em Portugal, conheci gente dos quatro cantos do mundo e posso permitir-me agora de fazer uma das coisas que mais gosto: Viajar. Trabalhar em França abriu-me portas que em Portugal não passariam de fechaduras. Sou funcionária pública, não acordo todos os dias a pensar “até quando tenho emprego?”, faço aquilo que gosto, vou regularmente a Portugal e não deixei de ser quem era. Vivo numa das capitais mais bonitas do mundo. Aproveito ao máximo o que Paris tem para me oferecer. Identifico-me imenso nesta cidade que não para, tal e qual eu. E com isto tudo, sobrar-me-á um livro de aventuras e de desafios para contar aos netos, desta vida que continua em terras de Hollande.

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