Radius:

Ser Enfermeiro num navio de cruzeiro


Posted by | February 9, 2016 | Migration Testemonies

PARTILHE
JoaoTeixeira

Ser enfermeiro come√ßa por ser uma op√ß√£o, muitas vezes irreflectida, outras considerada uma voca√ß√£o, ou simplesmente o resultado de v√°rias onting√™ncias a ponderar no momento de decidir um futuro e uma carreira.A verdade √© que a pr√°tica cl√≠nica da enfermagem acaba por consolidar ou desmoronar expectativas consoante a experi√™ncia de cada um no trajecto percorrido. No meu caso espec√≠fico, depois de quase vinte anos como enfermeiro dedicado √† urg√™ncia com experi√™ncia em pr√©-hospitalar em Portugal, seguida de dois anos de cuidados intensivos no Reino Unido, a vida de enfermeiro-marinheiro acabou por ser o meu caminho nos √ļltimos dezoito meses de percurso profissional.

Banner_Joaoteixeira_textemunho
A possibilidade de viajar e conhecer mundo √© algo que atrai a maioria das pessoas e para falar verdade, no momento em que decidi apostar neste emprego a motiva√ß√£o veio de alguma insatisfa√ß√£o com a minha recente experi√™ncia no sistema de sa√ļde privado do Reino Unido, mais do que o desejo de vir a ser um viajante. Um an√ļncio de recrutamento da Pro Sea Staff que exibia uma fotografia de dois navios de cruzeiro num porto tropical de √°gua azul-esmeralda foi a igni√ß√£o para quebrar com a monotonia e depois de clicar em meia d√ļzia de p√°ginas de internet estava a enviar o meu CV para aprecia√ß√£o pela empresa de recrutamento.

As compet√™ncias mais apreciadas foram desde logo a longa experi√™ncia em urg√™ncia e doente cr√≠tico e o potencial para trabalhar como first responder em situa√ß√Ķes de urg√™ncia e emerg√™ncia m√©dica. As formais entrevistas de avalia√ß√£o do n√≠vel de ingl√™s e de conhecimentos na √°rea de suporte avan√ßado de vida e doente cr√≠tico rapidamente deram lugar √†s burocracias e formaliza√ß√£o de contrato de trabalho, e em poucas semanas estava apto a embarcar um qualquer navio da frota.

A primeira semana a bordo de um navio de grande porte como enfermeiro foi um ensaio de adaptação à vida de mar, o primeiro contacto com a nausea associada ao movimento das ondas, a claustrofobia de viver confinado a um espaço limitado, a confusão inicial até construir algum sentido de orientação numa estrutura fechada sem os habituais pontos de referência geográfica, confrontando essa dificuldade com a necessidade de localizar precisamente um qualquer local onde uma resposta médica imediata fosse em qualquer momento necessária, as contingências de viver limitado a um quase inexistente ou muito limitado acesso às comuns tecnologias de comunicação (no mar todos estão dependentes de uma limitada e finita largura de banda de satélite e área de cobertura do mesmo), entre muitas outras coisas que funcionam de forma diferente a um qualquer hospital ou clínica em terra firme que não vou aqui detalhar. Trata-se de uma mudança de estilo de vida e uma grande adaptação a uma forma de fazer enfermagem diferente do convencional. Contudo a empresa teve a sensibilidade de fazer esse esforço de proporcionar uma adaptação e nem todos se sentem à vontade num grande navio no mar, alguns decidem depois de alguns dias que não é esse o seu caminho.

Passada essa prova√ß√£o inicial chegou o momento de embarcar nessa nova aventura, ser enfermeiro a tempo inteiro em terras distantes e ex√≥ticas. Austr√°lia e Pac√≠fico Sul, quatro meses de mar e portos de chamada na outra face do globo. Uma equipa m√©dica de quatro enfermeiros e dois m√©dicos para uma tripula√ß√£o de 1000 almas e uma m√©dia de 2500 passageiros. Um navio de m√©dio porte. Para quem est√° familiarizado com o sistema de sa√ļde ingl√™s, aqui n√£o √© muito diferente: um per√≠odo de adapta√ß√£o/prova√ß√£o e um longo conjunto de compet√™ncias para cumprir at√© obter a performance aut√≥noma. N√£o h√° dias de folga, todos, repito todos os dias s√£o dias de trabalho, num contrato de 120 dias em m√©dia. Depois desses quatro meses, s√£o concedidos dois meses de f√©rias em casa, n√£o remunerados. Todas as despesas de viagens, alimenta√ß√£o e acomoda√ß√£o est√£o asseguradas dentro do acordo de trabalho, assim como assist√™ncia m√©dica e plano de reforma.

JoaoTeixeira2A vida de enfermeiro a bordo mistura-se com a vida de passageiro uma vez que s√£o concedidos privil√©gios de oficial de duas stripes, o que concede acesso a decks de passageiros, teatros, cinema, espect√°culos ao vivo, restaurantes, bares, gin√°sios, piscinas e outras utilidades ao servi√ßo dos passageiros. Claro, sempre articulando esse acesso con as conting√™ncias do dever profissional e per√≠odos de descanso. Turnos on call de doze horas numa escala de rota√ß√£o fixa tipo ‚Äúdia – noite – folga – folga‚ÄĚ (para uma equipa de quatro enfermeiros). Em navios de maior porte a equipa conta ainda com param√©dicos que asseguram as fun√ß√Ķes de first responder relegando a enfermagem para os casos de doentes com necessidade de internamento ou observa√ß√£o por per√≠odos mais extensos. Existe uma necessidade de harmonizar o trabalho em equipa, dada a reduzida dimens√£o e inter-disciplinaridade da equipa m√©dica no global. Os navios disp√Ķem de postos m√©dicos com √°reas de observa√ß√£o de doentes agudos tipo servi√ßo de urg√™ncia, bem como camas de internamento com equipamento necess√°rio ao cuidado de doentes com n√≠vel cuidados de 1 a 3. Exames complementares de radiologia (RX convencional) e an√°lises cl√≠nicas s√£o assegurados por qualquer dos elementos da equipa, como parte integrante das suas compet√™ncias. O equipamento de apoio √† pr√°tica cl√≠nica √© similar ou equivalente ao encontrado em qualquer hospital em terra firme, sendo que a familiariza√ß√£o com o equipamento dispon√≠vel e a
sua manutenção e utilização fazem parte dos módulos de integração da primeira semana de indução que descrevi anteriormente.

O first responder, seja na figura do param√©dico ou do enfermeiro, est√° em servi√ßo √† chamada, al√©m das suas fun√ß√Ķes e responsabilidades para o dia de trabalho na cl√≠nica/hospital, e competelhe dar uma resposta adequada a todas as chamadas de ajuda ou socorro para situa√ß√Ķes m√©dicas, trabalhando em parceria com o m√©dico destacado para esse turno (dia ou noite), mas contando sempre e a todo o instante com a pronta colabora√ß√£o de toda a equipa a bordo do navio para qualquer situa√ß√£o de emerg√™ncia mais complexa, bastando para isso uma chamada telef√≥nica. Os servi√ßos de emerg√™ncia m√©dica articulam-se com os demais servi√ßos de emerg√™ncia do navio, respondendo a uma hierarquia que √© gerida em √ļltima inst√Ęncia pela equipa de comando na ponte e esta sob ordem directa do capit√£o do navio. Tamb√©m os servi√ßos de gest√£o e coordena√ß√£o da empresa em terra firme t√™m um papel preponderante na gest√£o de situa√ß√Ķes cr√≠ticas como cat√°strofe, evacua√ß√£o por meios a√©reos ou outras de complexidade ou natureza extraordin√°ria.Tudo se articula em tempo real com recurso √†s comunica√ß√Ķes pr√≥prias dentro do navio e deste com o exterior via sat√©lite. As situa√ß√Ķes cl√≠nicas que podem ocorrer neste contexto s√£o similares √†s encontradas em qualquer hospital em terra firme, com a agravante dos riscos e particularidades espec√≠ficas de um navio de cruzeiro de grande porte.

Trabalhar numa equipa m√©dica t√£o reduzida em termos num√©ricos pode ser um desafio no sentido de harmonizar as rela√ß√Ķes humanas, t√©cnicas e profissionais com as inerentes necessidades ou dificuldades de natureza individual. Devo acrescentar que os primeiros meses a bordo de um navio nestas condi√ß√Ķes podem ser uma prova√ß√£o n√£o semelhante a qualquer outra viv√™ncia pr√©via, com uma conota√ß√£o predominantemente negativa. Al√©m do descrito servi√ßo de first response, o hospital/cl√≠nica funciona de portas abertas para tripulantes e passageiros duas vezes ao dia e nesses per√≠odos todos os elementos da equipa s√£o chamados a participar. Os dias da semana t√™m uma fun√ß√£o meramente organizacional no calend√°rio, sendo que n√£o h√° qualquer distin√ß√£o entre dias de semana, feriados ou fins de semana, sejam eles quais forem. A verdadeira diferen√ßa entre os dias do calend√°rio √© serem dias de alto mar ou dias de porto.

Nos dias de porto, com o navio atracado, e sempre cumprindo os per√≠odos de portas abertas da cl√≠nica de manh√£ e √† tarde, os elementos da equipa n√£o escalados como first responders podem abandonar o navio e desfrutar dos portos de chamada ao seu bel prazer, sempre respeitado as horas de regresso impostas ou as responsabilidades profissionais a satisfazer. Muito importante, √© o zelo pela pr√≥pria integridade f√≠sica e seguran√ßa, nunca esquecendo que o porto de chamada pode ser qualquer ponto no globo terrestre dependendo do itiner√°rio do navio. √Č aqui que este emprego se pode tornar aliciante para muitas pessoas, a possibilidade de viajar e descobrir o planeta √† escala global.

Contudo garanto que estas horas de lazer s√£o largamente merecidas e muitas vezes quatro horas fora do navio numa qualquer praia paradis√≠aca podem representar v√°rios dias de clausura em alto mar ou portos de chamada como first responder ou a combina√ß√£o de ambos. No entanto √© uma dualidade cujo balan√ßo s√≥ pode ser avaliado pela experi√™ncia individual de cada um. H√° quem ame, h√° quem deteste e nunca mais regresse, h√° quem fique a meio e adopte solu√ß√Ķes de compromisso. Acima de tudo √© um emprego e n√£o umas f√©rias remuneradas, conv√©m nunca esquecer.

As rela√ß√Ķes no navio n√£o se limitam, obviamente, ao convivo com a equipa m√©dica. Existe um universo de outras pessoas de outros departamentos, de todos os recantos do mundo, com as mais variadas experi√™ncias e potencialidades, prontas a receber e enriquecer a experi√™ncia de trabalhar num navio de cruzeiro. Existe anima√ß√£o organizada para os tripulantes com bares, discoteca, atividades de lazer, excurs√Ķes em portos de chamada e todo um conjunto de outras iniciativas e amenidades que visam proporcionar aos tripulantes uma vida estimulante e divertida (na medida do poss√≠vel e aceit√°vel) e o combate ao stress. As componentes social e recreativa s√£o partes fundamentais da vida no mar. Desenganem-se se neste ponto os que acham que √© pura divers√£o. Trabalhar 7 a 14 horas por dia, todos os dias e o afastamento da fam√≠lia, amigos e demais componentes da zona de conforto de cada um podem ser muito penosas e dif√≠ceis ou imposs√≠veis de compensar. O termo do contrato ao fim dos quatro meses √© sempre um momento muito ansiado e apreciado. Conv√©m acrescentar que trabalhar para uma empresa a operar a n√≠vel¬†global representa um conjunto de condi√ß√Ķes intr√≠nsecas a tal n√≠vel operacional. √Č dif√≠cil desagregar o sentimento de ser apenas um n√ļmero mecanogr√°fico numa multid√£o de funcion√°rios, ainda que haja dias em que isso √© poss√≠vel. A qualquer momento podem destacar um qualquer funcion√°rio para um outro navio, mesmo que isso signifique atravessar metade do globo terrestre, para suprir necessidades imediatas e imprevistas. E acreditem que, passar 24h ou mais metido em avi√Ķes e aeroportos, lidar com checkins, emigra√ß√£o, interrogat√≥rios no aeroporto‚Ķ n√£o tem nada de entusiasmante ou divertido. Como se diz em Portugal, s√£o ossos do of√≠cio. Acima de tudo, trabalhar como enfermeiro num navio de cruzeiro √© um estilo de vida que coloca desafios a n√≠veis absolutamente inimagin√°veis para quem nunca vivenciou esta experi√™ncia. Pode ser extremamente aliciante e viciante em diversas dimens√Ķes, pode ser simultaneamente frustrante e desmotivante noutras. O mercado existe e a procura flutua dado elevado n√≠vel de turnover. Mas o requisito mais importante √© ter a vontade e a coragem de cortar o cord√£o umbilical com a zona de conforto, com a enfermagem mais convencional ou com a aspira√ß√£o de ter um plano de vida familiar convencional. A experi√™ncia adquirida √© sempre uma mais-valia no momento do recrutamento mas especialmente na pr√°tica cl√≠nica di√°ria, dadas as peculiaridades das equipas m√©dicas. Para finalizar, permitam-me dizer que n√£o √© dif√≠cil tomar decis√Ķes, mas nem sempre √© pac√≠fico viver com elas. De qualquer forma, se tiverem curiosidade e a oportunidade de experimentar este estilo de vida assegurem-se de ter um plano B, como seria aconselh√°vel em qualquer outra situa√ß√£o.

Jo√£o Teixeira

9480 total views, 21 today

Tags: ,

  • Jorge Monteiro

    Dif√≠cil tamb√©m √© a fun√ß√£o p√ļblica conceder licen√ßa sem vencimento

  • Ana Paula Bhering Amaral

    Ola Joao, sou enfermeira tb e agr estou em londres a trabalhar na area. Sempre tive interesse de um dia ter a experiencia de trabalhar num navio. Financeiramente compensa?