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Farmacêutica em Londres


Posted by | December 22, 2018 | Migration Testemonies

Ana Patrícia Freitas, Farmacêutica portuguesa no Reino Unido, conta-nos a sua experiência de emigração.

Emprego Sa√ļde ‚Äď Porqu√™ o Reino Unido?

Sou farmac√™utica no Reino Unido, desde 28 de Outubro de 2016. Conclu√≠do o curso de Mestrado Integrado em Ci√™ncias Farmac√™uticas, h√° dois anos atr√°s, deparei-me com um mercado de trabalho estagnado. Apesar das suas grandes fragilidades, Portugal prepara jovens muito competentes, quer a n√≠vel profissional, quer a n√≠vel social e humano. Infelizmente Portugal parece estar a preparar estes jovens de grande valor para os deixar emigrar para outros pa√≠ses onde encontram melhores condi√ß√Ķes laborais, valoriza√ß√£o e perspetivas de progress√£o na carreira.

Inicialmente, candidatei-me a diversos empregos em Portugal, mas as condi√ß√Ķes oferecidas eram p√©ssimas, tendo em vista todo o investimento na minha forma√ß√£o. Como agravante, alguns empregadores demonstraram, ainda, uma total indiferen√ßa perante a pessoa que iriam contratar. J√° para n√£o falar da oferta salarial ‚Äúhumilhante‚ÄĚ, aparentemente legitimada pelos ‚ÄúEst√°gios Profissionais‚ÄĚ.

Quando me deparei com este cen√°rio tomei a firme decis√£o de trabalhar no estrangeiro. Escolhi o Reino Unido pela dist√Ęncia e pela minha facilidade em me expressar em Ingl√™s.

 

Emprego Sa√ļde ‚Äď Como se processou a escolha do local de trabalho?

Durante a Faculdade j√° tinha estudado um ano fora, em Bolonha (It√°lia), no √Ęmbito do Programa Erasmus. Essa experi√™ncia mostrou-me que somos capazes de nos ‚Äúdesenrascar‚ÄĚ mesmo perante as situa√ß√Ķes mais ins√≥litas e que conseguimos ter sucesso naquilo a que nos propomos, mesmo que tenhamos que o fazer usando outra l√≠ngua que n√£o a materna. Tudo isto me deu for√ßa para arriscar. Com a ambi√ß√£o dos 24 anos de idade e com a cabe√ßa cheia de sonhos, candidatei-me a imensos empregos em diversas √°reas e em pa√≠ses completamente diferentes, em busca de uma boa oportunidade.

A minha procura revelou-se proveitosa, quando recebi uma resposta de um ‚ÄúRegional Manager‚ÄĚ da Tesco (multinacional de supermercados com farm√°cias integradas nas suas lojas de maiores dimens√Ķes). Nessa primeira entrevista, ainda n√£o tinha reunido toda a informa√ß√£o necess√°ria sobre a Ordem dos Farmac√™uticos em Inglaterra (GPhC) e as suas condi√ß√Ķes de acesso. O ‚ÄúRegional Manager‚ÄĚ confessou gostar da minha entrevista, pela motiva√ß√£o demonstrada, mas esclarecendo que para aquela posi√ß√£o precisava de algu√©m com urg√™ncia, que estivesse j√° no pa√≠s e que tivesse mais experi√™ncia. Quando estava prestes a perder o √Ęnimo, fui contactada pelo ‚ÄúRegional Manager‚ÄĚ de outra regi√£o, Southwest. Fizemos duas entrevistas para as quais eu j√° estava mais preparada e que correram muito bem. Nesta fase eu j√° tinha iniciado o processo de inscri√ß√£o no ‚ÄúGeneral Pharmaceutical Council‚ÄĚ, o que levou a que o empregador me considerasse para aquela vaga.

Aconteceu tudo no espaço de um mês, duas semanas de entrevistas e duas semanas para conseguir toda a documentação necessária para ser aceite no GPhC. Propuseram-me, então, a realização de estágio em Bristol, com a duração de um mês, em três farmácias distintas, cada uma com uma base de clientes muito diferente, para que eu tivesse contacto com todas as realidades. Este estágio foi à experiência e não remunerado. No entanto, valeu a pena o sacrifício, pois aprendi imenso e, no final, senti-me preparada para o novo emprego.

 

Emprego Sa√ļde ‚Äď E a adapta√ß√£o?

No in√≠cio de novembro, estava a mudar-me ‚Äúde armas e bagagens‚ÄĚ de Bristol para uma pequena vila na regi√£o de Somerset, Glastonbury. N√£o foi f√°cil mudar-me sozinha para um s√≠tio completamente desconhecido, mas a vontade de superar este desafio falou sempre mais alto do que os meus receios. Confesso que tive uma situa√ß√£o menos agrad√°vel com a senhoria da primeira casa para onde me mudei, mas que depressa foi resolvida. No dia seguinte, na farm√°cia onde viria a ser ‚ÄúDuty Pharmacy Manager‚ÄĚ, conheci uma Senhora espetacular que me ajudou a mudar as minhas coisas para o B&B do qual ela √© propriet√°ria. Foi a melhor coisa que me aconteceu, porque esta senhora e o marido tornaram-se a minha segunda fam√≠lia.

A adapta√ß√£o √† Farm√°cia foi r√°pida e f√°cil, pois no espa√ßo de um m√™s j√° me sentia completamente familiarizada com os nomes dos medicamentos e j√° sabia os sobrenomes dos clientes habituais e mais simp√°ticos. As pessoas da loja receberam-me bem e as t√©cnicas da farm√°cia ainda melhor. Aprendi muito com elas e, mais tarde, tamb√©m eu lhes viria a ensinar novas metodologias de trabalho. Torn√°mo-nos amigas. A ‚ÄúPharmacy Manager‚ÄĚ inglesa, que come√ßou a trabalhar na farm√°cia no mesmo dia que eu, era uma farmac√™utica muito pouco confiante e com poucas capacidades de lideran√ßa, tendo sido demitida no m√™s seguinte. Mais uma vez, a vontade de superar o novo desafio de gerir uma farm√°cia, mesmo sendo rec√©m-chegada ao pa√≠s, fez com que eu desempenhasse um bom trabalho. Adquiri in√ļmeras compet√™ncias que se revelaram muito √ļteis para o meu atual emprego. O ‚ÄúRegional Manager‚ÄĚ apoiou-me bastante nesta fase de transi√ß√£o, e no que veio a seguir.

O meu m√©rito viria a ser reconhecido um ano mais tarde, quando, por raz√Ķes salariais e profissionais (progress√£o na carreira), me demiti na sequ√™ncia de ter sido recrutada, via LinkedIn, para a vaga de ‚ÄúPharmacy Manager‚ÄĚ, numa nova Companhia. Ap√≥s uma entrevista, ofereceram-me emprego numa nova cidade, Bath, embora este processo demorasse cerca de 3 meses. Durante esse tempo, estive em negocia√ß√Ķes constantes com o ‚ÄúRegional Manager‚ÄĚ da empresa onde ainda trabalhava, que n√£o queria de modo algum que eu deixasse a Companhia. Durante estas negocia√ß√Ķes expressei a vontade de, eventualmente, me mudar para Londres, uma vez que o meu namorado estava a trabalhar nessa cidade e a pr√≥xima mudan√ßa ocorreria para Bath, pois a dist√Ęncia at√© Londres seria menor. Entretanto o tempo foi passando e, quando estava a duas semanas de me mudar para Bath, o ‚ÄúRegional Manager‚ÄĚ ligou-me a propor uma vaga de ‚ÄúPharmacy Manager‚ÄĚ em Londres. Eu nem queria acreditar que, ao fim de apenas um ano, o meu m√©rito seria reconhecido da melhor forma poss√≠vel. Nessa mesma noite aceitei a oferta, porque reunia todas as condi√ß√Ķes que eu tinha ambicionado.

 

Emprego Sa√ļde ‚Äď Quais os principais constrangimentos encontrados, ao n√≠vel social e profissional?

Atualmente trabalho como ‚ÄúPharmacy Manager‚ÄĚ em Woolwich, Londres, e estou a adorar a experi√™ncia. O desafio √© muito diferente de Glastonbury, vila inglesa do SouthWest, cujos pacientes s√£o maioritariamente idosos ingleses, muito educados e, ao contr√°rio do que se pensa, sem qualquer tend√™ncia discriminat√≥ria por profissionais estrangeiros. Em Londres o cen√°rio √© muito diferente, pois o choque cultural √© inevit√°vel e, como profissionais de sa√ļde, temos a necessidade de inventar estrat√©gias, de forma a ajudar as pessoas que n√£o falam ingl√™s. Especialmente em Woolwich, o contexto migrat√≥rio √© evidente. Aqui senti necessidade de recorrer √†s v√°rias l√≠nguas que tenho vindo a aprender. Diariamente uso o Italiano, o Espanhol, o Franc√™s, o Ingl√™s e a minha l√≠ngua materna, o Portugu√™s. At√© a minha equipa na Farm√°cia √© multicultural, tenho pessoas desde o Bangladesh e Jamaica, ao Ghana e Sum√°lia. Este contexto de diversidade n√£o influencia em nada a forma como trabalhamos em equipa, assim como o facto de atendermos pacientes provenientes de todos os continentes n√£o afeta a maneira como acedemos √†s suas necessidades. Estes contrastes tornam o meu emprego muito gratificante e refor√ßam a ideia de uma ‚ÄúAldeia Global‚ÄĚ.

 

Emprego Sa√ļde ‚Äď Preocupa-te o Brexit?

Em relação ao Brexit, embora me cause alguma apreensão, é algo em que não nos podemos focar muito, uma vez que a sua concretização está fora do nosso alcance. Contudo, acho que um dos objetivos do Brexit é dificultar a entrada de pessoas no País e não a de perder os profissionais qualificados que já aí trabalham. Em Inglaterra, tirar um curso superior é algo muito dispendioso, daí a falta de profissionais qualificados que, na sua maioria, vêm do estrangeiro. O Brexit tem que ser muito bem pensado pelos políticos intervenientes, antes de ser executado, ou será o Reino Unido que mais sofrerá as consequências.

 

Emprego Sa√ļde ‚Äď Satisfeita com a op√ß√£o?

Estou muito satisfeita com a op√ß√£o que tomei. Aqui a minha profiss√£o √© reconhecida, o m√©rito √© recompensado, h√° perspetivas de progredir na carreira e as condi√ß√Ķes salariais s√£o continuamente revistas e muito superiores √†s concedidas em Portugal. Comparando aspetos espec√≠ficos da profiss√£o farmac√™utica, aqui tenho a oportunidade de gerir uma farm√°cia com tudo o que isso acarreta. Estou envolvida em todas as atividades de gest√£o, nomeadamente a Gest√£o de Stock, a Gest√£o de Pessoal (contrata√ß√Ķes, f√©rias, forma√ß√£o‚Ķ), a Gest√£o de Recursos e a Gest√£o de Eventos de promo√ß√£o de sa√ļde. Como a farm√°cia est√° integrada numa cadeia de supermercados e √© necess√°rio gerar valor econ√≥mico, trabalhamos em fun√ß√£o de objetivos pr√©-estabelecidos pela empresa (valor em vendas e servi√ßos), o que nos mant√©m altamente motivados. Para al√©m disso, tenho um acesso privilegiado a forma√ß√Ķes online e estou apta a oferecer servi√ßos como revis√£o da medica√ß√£o, vacina√ß√£o (gripe, meningite), supervis√£o de pacientes em regime de metadona, consultas de disfun√ß√£o er√©til, contrace√ß√£o de emerg√™ncia, cessa√ß√£o tab√°gica, sa√ļde do viajante, entre outros.

Todas estas circunst√Ęncias tornam o exerc√≠cio da minha profiss√£o mais rico e o meu dia-a-dia enquanto farmac√™utica muito mais estimulante.

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