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C√°tia Medeiros | Migrar para Inglaterra | Sim, sou feliz!


Colocado por | Novembro 8, 2013 | Testemunhos de Migração

catiaC√°tia Medeiros √© uma enfermeira de 24 anos natural da ilha de S√£o Miguel, A√ßores. Licenciada em 2011 pela Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada, Universidade dos A√ßores. Tem como principais hobbies ler e ouvir m√ļsica. Considera-se uma pessoa persistente e independente, caracter√≠sticas que considera determinantes na sua decis√£o de emigrar. Decidiu ser Enfermeira pois considera que a profiss√£o engloba aquilo que mais gosta: a parte humana e a parte cient√≠fica do ser enfermeiro. Chegou a Inglaterra em Julho de 2012, onde trabalha como enfermeira de recobro na cidade de High Wycombe, Buckinghamshire.

C√°tia, porque a Inglaterra?

Apesar de ter encontrado trabalho em Portugal como enfermeira, decidi que emigrar seria a melhor op√ß√£o para mim. As minhas pesquisas come√ßaram por Inglaterra, dado a facilidade com a l√≠ngua. Durante alguns meses as √ļnicas propostas para Inglaterra relacionavam-se com lares, continuei a pesquisar e cheguei a ponderar a ida para a B√©lgica. Finalmente a oportunidade de trabalhar num hospital p√ļblico ingl√™s surgiu e a decis√£o final foi tomada.

Como se processou a escolha do local de trabalho?

Na altura em que enviei o CV para a empresa Kate Cowhig, haviam dois hospitais ingleses a recrutar enfermeiros portugueses. Um na cidade de Bath e o outro em High Wycombe. Este √ļltimo tinha vagas na √°rea que eu pretendia, Bloco Operat√≥rio. Dado que esta cidade ficava mais perto de Londres e por consequ√™ncia, dos aeroportos, a decis√£o tornou-se f√°cil.

E a adaptação?

Com voo marcado para dia 26 de Julho, tive de viajar de S√£o Miguel para o Porto no dia anterior para me juntar aos restantes colegas recrutados. Na noite que passei sozinha num hotel do Porto s√≥ pensava ‚ÄúC√°tia onde te foste meter!…‚ÄĚ. No aeroporto ap√≥s as apresenta√ß√Ķes, senti que ao menos apoio n√£o me iria faltar. Eramos 11 no total e est√°vamos todos no ‚Äúmesmo barco‚ÄĚ. Os primeiros dias foram stressantes com a procura de casa, comprar as coisas mais b√°sicas, as desloca√ß√Ķes para a Induction no hospital. And√°vamos sempre a correr com idas ao Starbucks para ligar para casa via Skype‚Ķ Foi vital o facto de nos termos unido todos: jantar para 11, sa√≠das a 11, filmes para 11. Confesso que foi mais f√°cil que aquilo que eu antevi‚Ķrecebi mensagens de familiares a perguntar se eu tinha emigrado para trabalhar ou para me divertir! Ao que eu pergunto? Porque n√£o os dois?

Quais os principais constrangimentos encontrados, ao nível social e profissional?

Inglaterra √© o pa√≠s das siglas, durante meses andei em constantes idas ao Google para descobrir o significado de v√°rias siglas com que me deparei. Toda a linguagem cient√≠fica envolvida era um tanto desconhecida, especialmente no que tocava ao bloco operat√≥rio. Considero que ainda tenho um longo caminho a percorrer, todos os dias aprendo algo novo. A hierarquia de Enfermagem, os hor√°rios e as compet√™ncias do enfermeiro s√£o um tanto diferentes das que encontramos em Portugal, dado que aqui o curso de Enfermagem dura apenas 3 anos. Ap√≥s a conclus√£o do curso, cada Enfermeiro passa por uma s√©rie de forma√ß√Ķes para poder exercer todas as suas compet√™ncias (tirar sangue, puncionar, algaliar pessoas do sexo oposto). √Č necess√°rio fazer um esfor√ßo para nos integrarmos naquilo que √© o sistema ingl√™s e n√£o fazer tantas compara√ß√Ķes com Portugal.

A n√≠vel social, a Inglaterra √© um pa√≠s multicultural. Trabalho com pessoas vindas dos quatro cantos do mundo, da√≠ que eles estejam habituados a receber imigrantes. Nestes quase 16 meses houve apenas uma situa√ß√£o em que n√£o me senti bem-vinda, ao ouvir um infeliz coment√°rio de uma enfermeira inglesa que era contra a emigra√ß√£o. Felizmente no meu servi√ßo contei sempre com o apoio dos meus colegas, em especial das minhas chefes. Outro aspecto muito diferente √© que aqui a vida di√°ria come√ßa e acaba bem mais cedo que em Portugal. Foi um tanto estranho adaptar-me a esse estilo de vida, ‚Äúdeitar cedo e cedo erguer‚ÄĚ!

Confirmas que existe uma diáspora de enfermeiros portugueses já visível na Inglaterra?

No total este centro hospitalar, para o qual trabalho, contratou cerca de 60 enfermeiros. Durante o ver√£o de 2012, o tema de conversa era o magote de enfermeiros portugueses que se haviam instalado em High Wycombe e numa cidade vizinha. Foi engra√ßado encontrar colegas ao fazer a passagem de turno, nas idas as compras e numa simples viagem de metro! Encontramos portugueses que j√° c√° andam h√° mais de 10 anos, muito contentes pela comunidade portuguesa estar a aumentar, mesmo que n√£o seja pelas raz√Ķes mais felizes.

Satisfeita com a opção?

Sete meses após ter chegado a Inglaterra, voltei pela primeira vez a são Miguel para férias durante o Carnaval. Sentada à mesa de jantar, essa foi a primeira pergunta que os meus pais me fizeram. Na altura, confesso que estava indecisa entre mentir e dizer a verdade… A verdade é que sim, estava muito feliz com a minha opção. Sabia que na verdade os ia deixar contentes mas ao mesmo tempo tristes por saber que quero continuar cá. Considero que todo o processo de procurar trabalho fora se iniciou por pura curiosidade…o bichinho instalou-se e levou-me até aqui. Tenho noção que perco muitas coisas no dia-a-dia dos meus familiares e amigos. Aniversários, Natais, festas de família, saídas com os amigos. A saudade torna-se uma constante, as idas ao Sapo para saber notícias do país, as chamadas pelo Skype e as encomendas que chegam pelo correio com as iguarias das ilhas! Apesar de tudo isso, a satisfação pessoal e profissional fazem com que a saudade se torne um pouco mais leve. A Inglaterra tem muito para oferecer: progressão na carreira, lindas paisagens, oportunidades culturais, bons amigos… Sim, sou feliz!

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