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Mónica, enfermeira, fazer a diferença em Angola


Colocado por | Março 27, 2014 | Testemunhos de Migração

Sou a Mónica, tenho 26 anos. Sou natural de Castelo de Paiva, fui militar no Exército Português durante 6 anos e licenciei-me pela Escola Superior de Enfermagem de Lisboa.

Nunca sonhei ser Enfermeira, mas sempre admirei o trabalho dos Enfermeiros, o muito que fazem e a pouca visibilidade que têm, não trabalham para serem reconhecidos, mas para fazerem a diferença…

Angola n√£o surgiu espontaneamente, eu enviei curr√≠culos propositadamente para toda a √Āfrica recusei propostas para a B√©lgica, Alemanha e Inglaterra‚Ķ Quando me fizerem a proposta aceitei sem pestanejar‚Ķ Porqu√™ Angola?! Porque para mim s√≥ faria sentido fazer o sacrif√≠cio de abandonar o meu pa√≠s se fosse para estar num local onde as pessoas sabem bem o que √© sacrif√≠cio e onde a minha saudade ou a m√°goa de abandonar o meu pa√≠s era pouco comparado ao muito que eu podia fazer por aquelas pessoas, as que sabiam muito antes de sa√≠rem do ventre o que √© dor e sofrimento.

Quando se fala em Angola, vulgarmente vem à nossa mente a imagem de crianças a passar fome, perseguidas pela guerra, descalças, semi-nuas e com o abdómen distendido… Pelo menos era essa a imagem que vinha à minha cabeça quando me falavam de Angola… Para mim Angola era sangue, era guerra, era dor, era fome, era sofrimento…

Hoje, a Angola que eu conheço é muito diferente daquela que eu imaginava e é isso que me proponho enunciar.

Angola foi um país colonizado por Portugueses, onde estes permaneceram até 11 de Novembro de 1975, altura em que Angola conseguiu a sua independência. Infelizmente esta independência não significou paz, Angola entraria numa guerra civil que só terminaria em 2002 com a morte de Jonas Savimbi.

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Ainda hoje nos ficam na mem√≥ria nomes como (MPLA ‚ÄstMovimento Popular de Liberta√ß√£o de Angola, FNLA ‚ÄstFrente Nacional de Liberta√ß√£o de Angola¬†e UNITA ‚ÄstUni√£o Nacional para a Independ√™ncia Total de Angola) os tr√™s principais movimentos de liberta√ß√£o de Angola.

Em 2014, 12 anos depois a Angola que encontro é uma terra sofrida, de gente sofrida e cansada de guerra. Rapidamente percebi que este povo colonizado tinha guardado ódio e rancor ao colono e por isso destruiu o máximo que ele tinha deixado… Edifícios, parques, jardins até mesmo o nome das cidades e das províncias…

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A realidade que o Mundo conhece de Luanda é que é a capital mais cara para se viver… A visão que eu tive de Luanda, foi a visão de uma cidade sem regras, pouco organizada, suja e muito povoada.

Coisas simples como saneamento b√°sico, cuidados de sa√ļde, rede de abastecimento de √°gua, rede el√©trica s√£o utopias neste pa√≠s, que tem vindo a evoluir e a reerguer-se.

Mas aqui há uma magia que não existe em todo o lado, aqui os sorrisos são sinceros, os carinhos também, a felicidade aqui é barata, custa pouco… mas não há nada que a compre.

Em cada metro quadrado podemos encontrar uma bela tela de fundo para uma fotografia, em cada pessoa um dialeto diferente e

monica7em cada rosto marcas de vida, da guerra, de sabedoria.

As crianças em Angola não se permitem ser crianças por muito tempo. Brincam com a água, com pedras, com paus… A maioria das vezes fazem os seus próprios brinquedos, mas algumas vezes não se podem sequer permitir brincar.

√Č muito vulgar ver-se uma crian√ßa com n√£o mais que seis anos a guardar uma manada de bois ou de cabras. H√° tamb√©m as crian√ßas que podem ir √† Escola, as meninas que se permitem ter vaidade, que entran√ßam o seu cabelo, que pintam os seus l√°bios, que sabem que existe um mar que banha esta terra.

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Parece incrível, mas é verdade… Angola é um país tropical, com deserto, montanhas, floresta densa, rios e banhado pelo mar, mas que a sua área é tão grande que não permite a todos terem acesso a todos estes locais.

Angola √© um pa√≠s de costumes, de religi√£o, de tradi√ß√Ķes‚Ķ Tradi√ß√Ķes t√£o particulares e t√£o distintas como cada uma das suas prov√≠ncias.

O povo em Angola √© desconfiado mas tem um grande cora√ß√£o, o calor do clima e o calor humano fazem com que a dist√Ęncia custe menos‚Ķ A cultura √© t√£o rica e aprende-se tanto com este povo que n√£o me vejo a fazer outra coisa nem a trabalhar noutro s√≠tio‚Ķ
Nem tudo são rosas, e já chorei em Angola… Mas cada sorriso que despertei àqueles que pude ajudar, fez com que essas lágrimas fossem insignificantes perante tamanha conquista.

Em Angola caminhei pelo desconhecido a par com animais que s√≥ tinha visto no zoo, dancei m√ļsicas que n√£o conhecia, falei outras l√≠nguas, aprendi a fazer banquetes com farinha √°gua e pouco mais, transportei crian√ßas √†s costas, vi um p√īr-do-sol diferente em cada dia, mas com uma magia que nenhuma foto conseguiu captar‚Ķ

Em Angola como em todo lado há o medo do desconhecido, mas se esse desconhecido for trazido por alguém com uma cor de pele diferente, passa de medo a desconfiança.

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A maioria dos Angolanos que viveram a guerra ainda a temem… Em cada esquina, a cada canto, sentem que a ameaça pode estar lá… E ela está… Em Angola existem centenas de campos minados, espalhados por todas as províncias, mas maioritariamente no Kuando Kubango a província que conheço melhor.

Em Angola para se trabalhar em sa√ļde √© preciso ter imagina√ß√£o, vontade e espirito de sacrif√≠cio‚Ķ H√° poucos meios, mas h√° sempre algo que se pode fazer‚Ķ e o que se faz, por pequeno que seja faz sempre diferen√ßa.

Em Angola aprendi muito e cresci muito, n√£o s√≥ como Enfermeira mas como pessoa‚Ķ Aquilo que aprendemos nos livros √© muito √ļtil para obtermos ECTS, mas quando estamos num pa√≠s do 3¬ļ Mundo, fora do contexto perfeito e controlado que temos nos laborat√≥rios da faculdade ou nos hospitais com tecnologia de ponta, tudo muda‚Ķ √Č preciso ter conhecimento, ter f√© mas acima te tudo ter cora√ß√£o. Como Enfermeira em Angola aprendi que √© muito mais importante entender do julgar e que esquecermo-nos de n√≥s para ajudar os outros n√£o √© ser grande, √© ser gigante‚Ķ e n√£o o fazer √© ego√≠smo puro‚Ķmonica6

Ningu√©m sonha ter que sair do seu pa√≠s para exercer a sua profiss√£o, ningu√©m sonha estar longe dos pais, da fam√≠lia, dos amigos, do conforto do lar… Ningu√©m sequer escolhe isso para si, emigrar √© simplesmente n√£o ter mais escolha!

H√° dias bons, h√° dias maus, mas todos t√™m uma coisa em comum, em nenhum deles teremos o colinho da m√£e para chorar, para desabafar ou mesmo para sorrir…
Valer√° a pena?! Se pensar em tudo o que se perde, acho que n√£o… Se pensar nos sorrisos que se desperta, no trabalho que se faz e naquilo que se vive, posso dizer, com toda a certeza… Cada um de n√≥s faz valer a pena!

Quem visita Angola leva na mala dois avisos. O primeiro √© que nem tudo o que reluz √© ouro. O segundo √© que mais arriscado do que n√£o gostarmos √© ficarmos fascinados!…

‚ÄúI‚Äôm an African not because I was born in Africa, but because Africa was born in me!‚ÄĚ

Kwame Nkrumah

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