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João Paralta | De Enfermeiro militar para a Suiça por Amor


Colocado por | Setembro 27, 2015 | Testemunhos de Migração

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O meu nome √© Jo√£o Paralta, tenho 26 anos e sou natural de Nisa (Alto Alentejo). Tirei o curso de Enfermagem na Escola Superior de Sa√ļde do Instituto Polit√©cnico de Portalegre. Comecei no Ano de 2006 e terminei em 2010.¬† Posso definir-me como muito organizado e simp√°tico. Escolhi Enfermagem um pouco por influ√™ncia, pois era o curso que a minha irm√£ estava a tirar e ouvia dizer que tinha sa√≠da. Desporto sempre foi o que mais me fascinava, mas para qu√™? Ir para o desemprego? Hoje sei que foi a melhor escolha e j√° passaram 5 anos que acabei o curso.

Assim que acabei o curso enviei bastantes curr√≠culos, como a maioria dos meus colegas. Passados poucos meses j√° tinha coloca√ß√£o pois entrei para a Marinha de Guerra Portuguesa, no concurso que abriram para profissionais de Sa√ļde. Fiz a recruta e o Curso B√°sico de Sargentos e comecei a trabalhar no Hospital da Marinha. Foi uma experi√™ncia de 11 meses que adorei e at√© tinha ‚Äúqueda‚ÄĚ para a vida militar, pois em todas as forma√ß√Ķes que fiz, passei sempre com distin√ß√£o, mas o meu contrato era determinado entre 3 e 6 anos se n√£o estou em erro, o sal√°rio era baixo, mas poderia aumentar de ano para ano caso n√£o houvesse congelamento na subida de posto, e segundo o que ouvia dizer ao fim desse tempo n√£o iam renovar o contrato.

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Tinha sempre a esperan√ßa que pudesse mudar, mas hoje sei que o que querem √© m√£o de obra barata, pois os meus camaradas do primeiro curso a entrar, dois anos antes que o meu j√° foram postos a mexer e n√£o foi por n√£o serem bons profissionais. Os pr√≥ximos que v√™m saem mais baratos. N√£o sei de quem √© a culpa, mas como se costuma dizer ‚Äú√© do sistema‚ÄĚ.

Custou-me imenso deixar a vida militar para tr√°s, mas hoje sei que foi o melhor que fiz, pois em Portugal pouco valor nos d√£o. No in√≠cio foi muito complicado, pois como ainda me faltavam cerca de dois anos e tal para acabar o contrato tive que pagar uma indemniza√ß√£o de 5420 ‚ā¨ e alguns c√™ntimos, que se n√£o fosse um grande esfor√ßo dos meus pais, n√£o sei como os tinha pago, num prazo limitado de 20 dias.

E foi assim a minha vida profissional atribulada antes de chegar aqui à Suíça.

Já faz 4 anos que trabalho na Suíça, na Fondation Miremont em Leysin no cantão do Vaud. Comecei por trabalhar num EMS(Lar) e passado um ano mudei-me para um serviço de reabilitação (CTR) que recebe os pacientes alguns dias após o internamento no Hospital e já faz 3 anos que estou neste serviço.

Emprego Sa√ļde – Porqu√™ a Su√≠√ßa?

Jo√£o Paralta – Escolhi a Su√≠√ßa, pois a minha esposa, namorada na altura j√° c√° estava e falava-me muito bem das condi√ß√Ķes disponibilizadas pelo pa√≠s. Posso dizer que a Su√≠√ßa foi escolhida por amor. Antes de entrar para a Marinha tamb√©m j√° tinha posto esta hip√≥tese em cima da secret√°ria mas ao entrar para a Marinha, ficou um pouco posta de lado.

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Emprego Sa√ļde – Como se processou a escolha do local de trabalho?

Jo√£o Paralta – A escolha do local de trabalho foi simples, pois enviei curr√≠culo para a institui√ß√£o onde a minha namorada na altura trabalhava. Consegui o email da administradora da institui√ß√£o, enviei-lhe o meu curr√≠culo, que lhe agradou e marcamos entrevista. Sabia se a entrevista corre-se bem que teria a oportunidade de ficar ali a trabalhar. Tive ent√£o que tomar uma decis√£o arriscada e rescindir contrato com a Marinha, pois tinha que dar um certo tempo √† ‚Äúcasa‚ÄĚ, para poder come√ßar a trabalhar na Su√≠√ßa, na data prevista por email, mas sem ter tido a entrevista na Su√≠√ßa. Entretanto a entrevista correu bem e definimos a data para come√ßar a trabalhar aqui. Como a ‚Äúagora‚ÄĚ minha esposa trabalhava na reabilita√ß√£o comecei a trabalhar no Lar, onde aprendi bastante ao n√≠vel da integra√ß√£o com as pessoas mais idosas e alguns colegas de trabalho.

Emprego Sa√ļde – E a adapta√ß√£o?

João Paralta РNão posso dizer que tenha sido fácil, mas também não posso dizer que tenha sido difícil. Quando vim para a instituição, já conhecia alguns colegas que trabalhavam na mesma instituição, não no mesmo serviço.

Ao nível da língua todos os dias aprendemos alguma coisa nova, mas como tinha tido alguns anos de Francês na escola em Portugal e até era bom aluno já me conseguia desenrascar minimamente. Também aprendi muito com uma senhora idosa que todos os dias me ensinava algo de novo, principalmente na questão do vocabulário.
Depois h√° aqueles colegas que a palavra racismo lhes assenta muito bem, mas passou-se bem.

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Emprego Sa√ļde – Quais os principais constrangimentos encontrados, ao n√≠vel social e profissional?

Jo√£o Paralta – √Č claro que existem constrangimentos, pois sendo um pa√≠s diferente, com cultura diferente e uma l√≠ngua diferente e ao estarmos longe da fam√≠lia mantem-nos desde j√° afastados da cultura daqui. Uma coisa que me surpreendeu bastante √© os supermercados fecharem por volta das 18h e s√≥ nas sextas-feiras fecharem por volta das 21h, o que n√£o se v√™ em Portugal, pois nas grandes cidades estamos habituados a grandes surfasses, o que aqui n√£o acontece. E o facto de trabalhar por vezes das 7h √†s 19h30, quando saio do trabalho j√° n√£o posso ir √†s compras.

N√≥s Portugueses gostamos de receber os outros, mas aqui existem certas pessoas que s√£o muito frias, pois pensam que lhes viemos roubar o lugar. ‚ÄúE por vezes viemos mesmo.‚ÄĚ

A n√≠vel profissional a pol√≠tica de cuidados aqui √© muito centrada na vontade do paciente, por exemplo se a pessoa n√£o quer comer, a vontade do paciente prevalece, que em Portugal, por tudo e por nada se mete uma Sonda Nasog√°strica para alimenta√ß√£o at√© mesmo aos √ļltimos momentos do paciente. Aqui prevalece-se muito o conforto da pessoa.

Uma das coisas muito boas aqui, √© a colabora√ß√£o das institui√ß√Ķes na nossa forma√ß√£o e pagam as despesas todas de forma√ß√£o, caso sejam de acordo com a mesma. Na maioria das vezes √© mesmo a institui√ß√£o que prop√Ķe as mesmas.

Para esclarecer todos aqueles que pensam que aqui √© s√≥ mil maravilhas aqui vai. Ganhamos bem, mas tamb√©m gastamos muito. Ou seja, temos um seguro de sa√ļde a pagar por m√™s, as rendas das casas s√£o altas, descontamos bem, temos as nossas contas, mas conseguimos ter uma boa qualidade de vida e por vezes meter algum dinheiro de lado. √Č claro que estamos longe de Portugal, mas a vida √© mesmo assim e em Portugal pouco valor nos d√£o.

Emprego Sa√ļde – Confirmas que existe uma di√°spora de enfermeiros portugueses j√° vis√≠vel na Su√≠√ßa?

Jo√£o Paralta – Confirmo e volto a confirmar. Como se costuma dizer: ‚ÄúSomos mais do que as m√£es.‚ÄĚ
Como j√° referi mais acima j√° conhecia alguns colegas Enfermeiros Portugueses na institui√ß√£o da mesma escola do que eu. Na altura havia o lema, um tr√°s o outro e por ai fora. At√© ao momento na institui√ß√£o j√° trabalharam 9 enfermeiros da Escola Superior de Sa√ļde de Portalegre. De momento somos 6. Mas Portugueses √© o que h√° mais. Somos mesmo muitos enfermeiros Portugueses a trabalhar na Su√≠√ßa.

Emprego Sa√ļde – Satisfeito com a op√ß√£o?

João Paralta РMuito satisfeito mesmo. Foi graças à minha saída de Portugal que consegui casar, criar família, e ter a maior parte das coisas que tenho hoje.
Como tinha referido as institui√ß√Ķes apoiam nas forma√ß√Ķes e no meu caso tamb√©m me apoiaram. Acabei √† pouco o CAS de Praticien Formateur, que em Portugu√™s √© uma P√≥s- Gradua√ß√£o de Orientador de Est√°gios. Todos os alunos de enfermagem que v√™m em est√°gio s√£o seguidos pela pessoa que tiver esta forma√ß√£o.

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