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Rita | Fisioterapeuta | “√Č preciso sentir-se Angola pelo tanto que tem e n√£o pelo tanto que lhe falta”


Posted by | November 30, 2013 | Migration Testemonies

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Sou a Rita h√° 30 anos, que √© Fisioterapeuta h√° 9 e que se move pelas suas vontades, determina√ß√Ķes, impulsos, pelos seus sonhos e acima de tudo pelo que a vida a faz sentir, desde que se conhece como gente.

Trabalhava há 6 anos como Fisioterapeuta num Centro de Neuroreabilitação no sul do pais quando fui inesperadamente, a meio de um corredor, intersetada pelo Luís, um ex-colega de trabalho (que no momento estava em Angola) e que ali assim, de animo leve, no meio de um treino de marcha com uma pessoa, me convidava a embarcar num novo projecto, a experimentar um novo desafio, a ser sua parceira numa nova aventura: ser docente ao curso de Reabilitação Física e Psico Social na Universidade Metodista de Angola.

Fui para casa a correr, para partilhar a noticia. J√° havia anteriormente, deixado no ar a hip√≥tese de poder ‚Äúsaltar fora‚ÄĚ. Afinal, j√° fazia tempo que o ‚Äúbichinho‚ÄĚ andava a ‚Äúmorder‚ÄĚ, e a experi√™ncia que havia tido de 3 meses na Rom√©nia n√£o tinha sido a medida certa para ‚Äúmatar‚ÄĚ a vontade de querer voltar a ‚Äúvoar‚ÄĚ.

Quando disse aos pais que a oportunidade tinha surgido e que Angola era a hip√≥tese, aos rostos que irradiavam uma mistura de surpresa, medo e inquieta√ß√£o associou-se um: ‚ÄúAngola, filha?! N√£o podia ser Fran√ßa, Inglaterra, B√©lgica, Su√≠√ßa?!‚ÄĚ ao que respondi confiante: ‚ÄúA vida sabe o que tem que ser, ela sabe por onde me leva!‚ÄĚ

E foi Angola sim! Foi para Angola que vim naquele dia 5 de Março, e já lá vão quase 9 meses em que este é o meu paradeiro

Na verdade, no momento em que me decidi, n√£o me vi ou senti como muitos dos meus pares, que por precariedade no emprego ou falta dele, se veem obrigados a sair e deixar o pais. N√£o, n√£o foi essa a minha for√ßa centrifuga, n√£o foi essa a minha for√ßa motriz, n√£o foi isso que me impulsionou a fazer as malas e partir… E, a verdade, √© que quando parti, vim √† procura de mais do que trabalho…

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Eu sonho com saber, com conhecer , com experienciar, com viver, com fazer, com sentir! Com saber mais, conhecer mais, experienciar mais, viver mais, com fazer mais e sentir mais e melhor…! No fundo √© essa ‚Äúsede‚ÄĚ que me move, √© essa vontade de quebrar com o fazer rotineiro e a vontade de fazer e sentir diferente. Acredito tamb√©m que estas experi√™ncias… esta experi√™ncia… me torna melhor….pessoa! Foi sobretudo isso que me fez ‚Äúganhar asas e voar‚ÄĚ, pegar na mala meio-cheia, meio-vazia e partir para fazer algo completamente novo para mim: ser professora.

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√Č verdade que quando c√° cheguei, para al√©m de ter a necessidade de me adaptar a uma nova actividade profissional, deparei-me com uma realidade bem distinta daquela que √© a nossa, daquela que tinha no Algarve, no meu ‚Äúcentro do mundo‚ÄĚ. Aqui lidamos com algumas dificuldades, com muita assimetria, com caos e anarquia no transito (chega a ser 2h para fazer 30km), com lixo em abund√Ęncia, com alguma inseguran√ßa. Por vezes tamb√©m lidamos com a solid√£o, lidamos com o perigo da dengue e da mal√°ria, com um custo de vida alt√≠ssimo (n√£o fosse Luanda a capital mais cara do mundo) e eu lido diariamente com a saudade….essa talvez seja a que mais me custa em estar por onde estou!

Mas, para que tudo fa√ßa sentido, √© preciso sentir-se Angola pelo tanto que tem e n√£o pelo tanto que lhe falta. E eu, aqui, conheci um novo continente, um novo pais, uma nova cultura. Conheci novos povos, novas caras, novas gentes e fiz novos amigos. Distribu√≠ e recebi sorrisos. Partilhei e recebi conhecimento. Senti novos sabores, novos cheiros, novas m√ļsicas. Dancei outras dan√ßas, vivi outros ritmos, andei por outras andan√ßas, corri outros caminhos, caminhei por outras estradas. Vi magn√≠ficas paisagens e ao final de cada dia, vos confesso: assisti aos mais lindos p√īr-do-sol em toda a minha vida e em boa verdade vos garanto: h√° tanta luz aqui!

Por quanto tempo irei permanecer? Sei que o ‚Äúcontrato‚ÄĚ que fiz comigo mesma foi de ficar por um ano lectivo e a isso, eu n√£o me falho. Se nunca mais voltarei a Angola? Ou se fico para sempre?! Sei que nunca, √© muito tempo e que para sempre, √© sempre por um triz por isso, o que tiver que ser, tem muita for√ßa! Continuo confiante na vida e no que ela me faz sentir, a cada gota de mais um dia e continuo, inspirada e preparada para o que quer que ela me reserve!

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