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Ana Rodrigues: Saudi Arabia… 8 months later!


Posted by | June 27, 2013 | Migration Testemonies

 

Ana Rodrigues, enfermeira

 

8 meses depois…‚Ä®‚Ä®Ando h√° meses para escrever sobre esta experi√™ncia… Trabalhar e viver na Ar√°bia Saudita…!

Parece tema de conversa para horas e horas, e dias, mas na realidade n√£o √© para tanto!‚Ä®‚Ä®Falaram-me do choque cultural, e das diferen√ßas que ia encontrar na vida social; e claro que √© diferente, mas honestamente esperava mais restri√ß√Ķes, mais sacrif√≠cios, mais dificuldades… E n√£o!‚Ä®‚Ä®Em “casa”…

A vida no compound √© muito tranquila e ocidentalizada, tal qual vivesse numa “Wisteria Lane”! A sensa√ß√£o √© de estar num bairro fechado, protegido, grande o suficiente para n√£o parecer uma gaiola, mas pequeno o bastante para em pouco tempo se conhecerem os vizinhos, e se fazerem lanches, jantares e afins s√≥ porque sim!‚Ä®Al√©m das casinhas de bonecas com jardim e p√°tio, temos a piscina, o mini gin√°sio, e alguns courts de t√©nis! ‚Ä®Como se n√£o fosse j√° suficiente, o usufruto destas instala√ß√Ķes e sua manuten√ß√£o √© gratuito! E permitam-me frisar este ponto da manuten√ß√£o ser gratuita, porque √© algo que tomo mesmo como verdadeiro luxo! A carpete/paredes est√£o sujas? Chamam-se as senhoras da limpeza! A torneira pinga? Chama-se o canalizador! A toma de electricidade n√£o funciona? Chama-se o electricista! O jardim est√° uma mis√©ria? Chama-se o jardineiro! Os sof√°s est√£o velhos/feios?! Vai-se ao armaz√©m escolher outros (que seguramente ser√£o velhos tamb√©m, mas estar√£o ao nosso gosto)! O microondas n√£o funciona?! Eles reparam ou substituem! E assim, todo aquele stress de procurar um¬†t√©cnico¬†que tenha disponibilidade e seja economicamente sustent√°vel desaparece, e vive-se mesmo tranquilamente!

‚Ä®‚Ä®O que vestir?!‚Ä®Dentro do compound as restri√ß√Ķes √† roupa que podemos usar prendem-se mais com o bom-senso de cada uma do que regras estritas, podendo inclusivamente usar-se mini-saias e decotes, ou fazer topless na piscina! ‚Ä®No recinto do hospital √© um pouco diferente! Pede-se a todas as pessoas que mantenham uma apar√™ncia profissional, e isso significa n√£o usar cal√ßas de ganga, roupa com mensagens estampadas que possam ser ofensivas, e saltos altos! A par com estas normas espera-se que as mulheres andem com roupas largas, pouco reveladoras da escultura feminina, e todos preferencialmente tapados (nada de cal√ß√Ķes, mangas cavas ou decotes)! O uso da abbaya √© de acordo com a preferencia de cada uma! ‚Ä®Quando sa√≠mos desta “bolha ocidentalizada” que √© o hospital e seus compounds h√° que seguir a regra saudita: abbaya e len√ßo seja para onde for! N√£o importa se √© s√≥ uma viagem de carro do compound para a embaixada, ou se no restaurante at√© √© para ficar numa sala privada em que o uso da abbaya n√£o seja obrigat√≥rio… N√£o importa! Sempre que se sai, abbaya e len√ßo s√£o adere√ßos obrigat√≥rios! ‚Ä®‚Ä®A abbaya…‚Ä®As abbayas s√£o uma esp√©cie de t√ļnicas compridas, pretas, que tapam todo o corpo at√© aos p√©s. Encontram-se de v√°rias formas e feitios, mas sempre cumprindo o objectivo de tapar o corpo da mulher!‚Ä®Eu pessoalmente tenho umas quantas… A simples toda preta com brilhantes pretos nos punhos e colarinho; a preta com bordados dourados; a rendada; a estupidamente larga… Detalhes e mariquices de menina vaidosa!‚Ä®Os len√ßos andam quase sempre ao pesco√ßo, mas fora do hospital d√£o jeito para tapar o cabelo se abordadas por um muttawa (“policia religiosa”), ou simplesmente para esconder um dia mau de cabelo!‚Ä®E pode parecer cruel ser obrigada a usar tanta roupa no calor deste deserto, mas o facto √© que ter a abbaya e o len√ßo para tapar o sol e evitar a radia√ß√£o directa na pele √© um alivio!

Pelas condi√ß√Ķes climat√©ricas, e provavelmente tamb√©m pela cultura de restri√ß√Ķes e preserva√ß√£o da mulher, n√£o √© muito habitual verem-se mulheres a caminhar pela cidade! √Č poss√≠vel, e n√£o infringe nenhuma lei, mas ir √†s compras ou simplesmente ver montras acaba por acontecer mais em centros comerciais. Os passeios a p√© acontecem √† noite, normalmente em grupos de mulheres, ou homens, ou fam√≠lias, em parques ou cal√ßad√Ķes para o efeito.‚Ä®‚Ä®E quem nos conduz?! ‚Ä®Neste pa√≠s n√£o h√° transportes p√ļblicos, e as mulheres est√£o proibidas de conduzir! Assim, faz sentido que a Ar√°bia Saudita seja o pa√≠s com mais motoristas no mundo! ‚Ä®Normalmente eu uso o servi√ßo de motoristas do hospital para ir onde for, e ou combino a volta com o mesmo motorista ou depois apanho um taxi! √Äs vezes n√£o √© f√°cil fazermo-nos entender porque nem toda a gente fala ingl√™s, e h√° sempre algum chico-esperto a tentar enganar-nos no caminho para fazer mais uns trocos, mas a verdade √© que ao fim de um tempo dominamos o sistema de transportes tal como em casa!‚Ä®‚Ä®As rela√ß√Ķes com o sexo oposto…‚Ä®Esta foi outra agrad√°vel surpresa! Pensava eu antes de vir que ia estar tal freira num convento, que falar com um homem seria um grande pecado ou afronta, mas n√£o! Homens e mulheres podem falar uns com os outros, e at√© conviver nas zonas de fam√≠lias! H√° regras, mas n√£o √© t√£o restrito como se poderia pensar!

No trabalho a diferen√ßa em rela√ß√£o a qualquer pa√≠s ocidental √© quase impercept√≠vel! Homens e mulheres trabalham juntos; sauditas e ocidentais; mu√ßulmanos e cat√≥licos… E n√£o h√° nenhum problema! As pessoas tratam-se com respeito, e √© certo que se por um lado toques casuais devem ser evitados, por outro tudo se pode dizer desde que com educa√ß√£o!‚Ä®‚Ä®O compound onde vivo √© s√≥ de mulheres, e obviamente tem a entrada proibida a homens; no refeit√≥rio principal do hospital tamb√©m homens e mulheres est√£o separados, como em quase todos os restaurantes; mas existem zonas onde o conv√≠vio √© poss√≠vel!

E nos tempos livres?!‚Ä®Al√©m do descanso que o corpo pede depois de turnos de 12h30, h√° sempre alguma coisa para fazer de acordo com as preferencias de cada um!‚Ä®Desportos v√°rios no Social Club, um caf√©/gelado na esplanada, uma tarde de piscina, compras ou o que for nos centros comerciais, acampamentos/caminhadas no deserto, viagens por qualquer pa√≠s dos arredores, festas nas embaixadas e/ou outros compounds, bowling em hot√©is, almo√ßos e jantares… Tudo e/ou mais do que se pode fazer em casa com a vantagem de dinheiro n√£o ser obst√°culo!¬†‚Ä®‚Ä®E falando de dinheiro…‚Ä®Pagam o que prometem a tempo e horas! Quem pensa em poupar um trocos, pode perfeitamente cumprir o seu objectivo, e al√©m do sal√°rio base existe sempre a possibilidade de ganhar algo mais em turnos extra! S√≥ depende da vontade de cada um!

‚Ä®‚Ä®O hospital e o trabalho…‚Ä®Foi uma surpresa!‚Ä®Durante o per√≠odo das entrevistas pensei muitas vezes que poderia n√£o estar √† altura, que o grau de exig√™ncia seria muito acima do que estava habituada, que talvez precisasse ter feito um curso de ingl√™s tecnico… Sei l√°! Com um processo de selec√ß√£o t√£o prolongado e moroso sentia-me muito pequenina para trabalhar num hospital t√£o grande! Treta! A forma√ß√£o profissional em Portugal, e experi√™ncia de trabalho em Espanha, foram mais do que suficientes para n√£o precisar de mais do que o normal per√≠odo de integra√ß√£o para estar como peixe na √°gua! ‚Ä®√ďbvio¬†que no in√≠cio me senti como que sa√≠da da escolinha, e tudo era t√£o novo! Um sistema inform√°tico integrado, mas complicado; doen√ßas, termos e protocolos novos; lidar com t√©cnicos de tudo e n√£o saber os limites das minhas compet√™ncias… Mas tudo se aprende! E prestar cuidados de enfermagem de excel√™ncia que √© o fundamental, o meu trajecto como enfermeira fora daqui ensinou-me!

N√£o h√° lugar neste mundo que seja perfeito para trabalhar, e definitivamente a Ar√°bia Saudita n√£o est√° sequer perto disso, mas √© um pa√≠s em continuo crescimento, que come√ßa a abrir-se ao ocidente, e que est√° determinado a atingir padr√Ķes de qualidade, reconhecendo os que ajudam no processo com uma remunera√ß√£o monet√°ria que poucos pa√≠ses no mundo oferecem!‚Ä®‚Ä®Al√©m disso, e no caso particular do hospital, o investimento al√©m de financeiro √© tamb√©m a n√≠vel educacional, procurando que todos os seus colaboradores tenham dispon√≠vel a maior e melhor oferta de forma√ß√£o profissional que obviamente se reflecte em melhores cuidados!‚Ä®‚Ä®A vida na Ar√°bia Saudita √©, como em todo lado, o que fizermos dela! Pode ser um inferno ou um mundo de oportunidades! ‚Ä®‚Ä®A maioria das pessoas que v√™m para este pa√≠s est√£o de passagem… E ningu√©m vem mudar a cultura ou os costumes! Isso s√£o coisas que mudar√£o ou n√£o de acordo com as vontades dos que s√£o daqui! A n√≥s que vimos de fora resta-nos respeitar! Ningu√©m que venha vem enganado… E cada um sabe o pre√ßo que est√° disposto a pagar por atingir os seus objectivos! ‚Ä®Para mim vale a pena!

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